segunda-feira, 24 de outubro de 2011

A origem divina da Palavra... Segundo as tradições do Sul do Saara

Oi gente! Uma bela semana para todos nós! Que sejam dias de luz, paz e amor!


Trago um texto que me foi passado por meu compadre. Acredito que muitos de nós não nos damos conta todo o tempo da força que as palavras tê. Certa vez já falei sobre isso aqui no Blog. 
Isso não é uma ideia mística, ou ligada às religiões espiritualistas... Isso é um conceito universal. Pode ser explicado por métodos científicos. Então, até o mais cético dos homens deveria prestar atenção nesse detalhe tão importante...
Segue o texto (com referência bibliográfica) que é longo, mas vale à pena! ;)


Como não posso discorrer com autenticidade sobre quaisquer tradições que não tenha vivido ou estudado pessoalmente – em particular as relativas aos países da floresta – tirarei os exemplos em que me apóio das tradições da savana ao sul da Saara (que antigamente era chamada de Bafur e que constituía as regiões de savana da antiga África ocidental francesa).
A tradição bambara do Komo2 ensina que a Palavra, Kuma, é uma força fundamental que emana do próprio Ser Supremo, Maa Ngala, criador de todas as coisas. Ela é o instrumento da criação: “Aquilo que Maa Ngala diz, é!”, proclama o chantre do deus Komo.
O mito da criação do universo e do homem, ensinado pelo mestre iniciador do Komo (que é sempre um ferreiro) aos jovens circuncidados, revela‑nos que quando Maa Ngala sentiu falta de um interlocutor, criou o Primeiro Homem: Maa.
Antigamente a história da gênese costumava ser ensinada durante os 63 dias de retiro imposto aos circuncidados aos 21 anos de idade; em seguida, passavam mais 21 anos estudando‑a cada vez mais profundamente.
Na orla do bosque sagrado, onde Komo vivia, o primeiro circuncidado entoava ritmadamente as seguintes palavras:

“Maa Ngala! Maa Ngala!
Quem é Maa Ngala?
Onde está Maa Ngala?”
O chantre do Komo respondia:
“Maa Ngala é a Força infinita.
Ninguém pode situa‑lo no tempo e no espaço.
Ele é Dombali (Incognoscível)
Dambali (Incriado – Infinito)”.

Então, após a iniciação, começava a narração da gênese primordial:

“Não havia nada, senão um Ser. Uma das grandes escolas de iniciação do Mande (Mali).
Este Ser era um Vazio vivo, a incubar potencialmente as existências possíveis.
O Tempo infinito era a moradia desse Ser‑Um. O Ser‑Um chamou‑se de Maa Ngala.
Então ele criou ‘Fan’, um Ovo maravilhoso com nove divisões No qual introduziu os nove estados fundamentais da existência. Quando o Ovo primordial chocou, dele nasceram vinte seres fabulosos que constituíram a totalidade do universo, a soma total das forças existentes do conhecimento possível.
Mas, ai!, nenhuma dessas vinte primeiras criaturas revelou‑se apta a tornar‑se o interlocutor (kuma‑nyon) que Maa Ngala havia desejado para si. Assim, ele tomou de uma parcela de cada uma dessas vinte criaturas existentes e misturou‑as; então, insuflando na mistura uma centelha de seu próprio hálito ígneo, criou um novo Ser, o Homem, a quem deu uma parte de seu próprio nome: Maa. E assim esse novo ser, através de seu nome e da centelha divina nele
introduzida, continha algo do próprio Maa Ngala”. Síntese de tudo o que existe, receptáculo por excelência da Força suprema e confluência de todas as forças existentes, Maa, o Homem, recebeu de herança uma parte do poder criador divino, o dom da Mente e da Palavra.
Maa Ngala ensinou a Maa, seu interlocutor, as leis segundo as quais todos os elementos do cosmo foram formados e continuam a existir. Ele o intitulou guardião do Universo e o encarregou de zelar pela conservação da Harmonia Universal. Por isso é penoso ser Maa.
Iniciado por seu criador, mais tarde Maa transmitiu a seus descendentes tudo o que havia aprendido, e esse foi o início da grande cadeia de transmissão oral iniciatória da qual a ordem do Komo (como as ordens do Nama, do Kore, etc., no Mali) diz‑se continuadora.
Tendo Maa Ngala criado seu interlocutor, Maa, falava com ele e, ao mesmo tempo, dotava‑
o da capacidade de responder. Teve início o diálogo entre Maa Ngala, criador de todas as coisas, e Maa, simbiose de todas as coisas.
Como provinham de Maa Ngala para o homem, as palavras eram divinas porque ainda não haviam entrado em contato com a materialidade. Após o contato com a corporeidade, perderam um pouco de sua divindade, mas se carregaram de sacralidade. Assim, sacralizada pela Palavra divina, por sua vez a corporeidade emitiu vibrações sagradas que estabeleceram a comunicação com Maa Ngala.
A tradição africana, portanto, concebe a fala como um dom de Deus.
Ela é ao mesmo tempo divina no sentido descendente e sagrada no sentido ascendente.
A fala humana como poder de criação Maa Ngala, como se ensina, depositou em Maa as três potencialidades do poder, do querer e do saber, contidas nos vinte elementos dos quais ele foi composto. Mas todas essas forças, das quais é herdeiro, permanecem silenciadas
dentro dele. Ficam em estado de repouso até o instante em que a fala venha coloca‑las em movimento. Vivificadas pela Palavra divina, essas forças começam a vibrar. Numa primeira fase, tornam‑se pensamento; numa segunda, som; e, numa terceira, fala. A fala é, portanto, considerada como a materialização, ou a exteriorização, das vibrações das forças.
Assinalemos, entretanto, que, neste nível, os termos “falar” e “escutar” referem‑se a realidades muito mais amplas do que as que normalmente lhes atribuímos. De fato, diz‑
se que: “Quando Maa Ngala fala, pode‑se ver, ouvir, cheirar, saborear e tocar a sua fala”. Trata‑se de uma percepção total, de um conhecimento no qual o ser se envolve na totalidade.
Do mesmo modo, sendo a fala a exteriorização das vibrações das forças, toda manifestação de uma só força, seja qual for a forma que assuma, deve ser considerada como sua fala. É por isso que no universo tudo fala: tudo é fala que ganhou corpo e forma.
Em fulfulde, a palavra que designa “fala” (haala) deriva da raiz verbal hal, cuja ideia é “dar força” e, por extensão, “materializar”. A tradição peul ensina que Gueno, o Ser Supremo, conferiu força a Kiikala, o primeiro homem, falando com ele. “Foi a conversa com Deus que fez Kiikala forte”, dizem os Silatigui (ou mestres iniciados peul).
Se a fala é força, é porque ela cria uma ligação de vaivém (yaa‑warta, em fulfulde) que gera movimento e ritmo, e, portanto, vida e ação. Este movimento de vaivém é simbolizado pelos pés do tecelão que sobem e descem, como veremos adiante ao falarmos sobre os ofícios tradicionais.
À imagem da fala de Maa Ngala, da qual é um eco, a fala humana coloca em movimento forças latentes, que são ativadas e suscitadas por ela – como um homem que se levanta e se volta ao ouvir seu nome.
A fala pode criar a paz, assim como pode destrui‑la. É como o fogo. Uma única palavra imprudente pode desencadear uma guerra, do mesmo modo que um graveto em chamas pode provocar um grande incêndio. Diz o adágio malinês: “O que é que coloca uma coisa nas devidas condições (ou seja, a arranja, a dispõe favoravelmente)? A fala. O que é que estraga uma coisa? A fala. O que é que mantém uma coisa em seu estado? A fala”.
A tradição, pois, confere a Kuma, a Palavra, não só um poder criador, mas também a dupla função de conservar e destruir. Por essa razão a fala, por excelência, é o grande agente ativo da magia africana.

Fonte: História Geral da África - UNESCO


Espero que o texto seja tão proveitoso quanto foi para mim!!!
Beijos!!! :)

3 comentários:

Vicente Rubio disse...

Te escribo desde Valencia en España y he leído con atención el texto de tu amigo y sinceramente no se en que ha podido hacerte mella en tu espíritu a mi particularmente no he entendido nada de nada.
Quizá, porque soy Católico y conozco a la perfección mi religión aunque rápidamente y para que no hayan malos entendidos admito todas las creencias y religiones a santos y santones que pululan por este mundo de Dios.
El final siempre es lo mismo, que todos creemos en un Sr Supremo.
Un abrazo, pero me gusta ser sincero y decir lo que pienso siempre.

Rita disse...

Olá querido Amigo Vicente!

Bom, a postagem desse texto foi justamente para mostrar que, apesar da diversidade cultural, o conceito do poder contido no pronunciar uma palavra é universal.

Não levanto bandeiras religiosas nesse Blog, apenas procuro enaltecer minha religião, sem denegrir ou menosprezar nenhuma outra.

Fico feliz que você acompanhe meu espaço, aliás, nosso espaço e espero que participe sempre.

Fique com Deus!

Vicente Rubio disse...

Rita muchas gracias por hacerse amiga mia en mi blog y es un honro.
Que encuentres la felicidad que veo que buscas con fuerzas.
Un abrazo muy cordial amiga desde Valencia
Te adjunto mis tres blogs y veras que son variados, en uno pongo actualidad, en el segundo es variado y si encuentro algun articulo que me interesa lo divulgo y el tercero es sobre mi maravillosa ciudad Valencia.

www.vicenteluisrubio.blogspot.com
www.rincondevicenteluisrubio.blogspot.com
www.unvistazoavalencia.blogspot.com

Meu Selinho

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